Prototipagem em Papel

Quarta-feira, 9 de Novembro de 2005

Estou envolvido num projecto enorme que inclui o desenvolvimento de uma Aplicação de Gestão de uma empresa. A grande dificuldade passa pela própria dimensão da empresa e da sua complexidade. Existem 7 departamentos diferentes que executam várias funções distintas, no entanto, há um workflow contínuo que permite que o trabalho vá passando de departamento em departamento e há um repositório de informação em que todos os departamentos vão buscar dados.

Para a concepção desta nova aplicação, primeiro realizámos entrevistas com pessoas de todos os departamentos de forma a tentar perceber quais eram as suas tarefas e de que forma as desempenhavam (actividade). Após duas semanas de entrevistas, foi altura de analizar todos os dados que registámos e começar a pensar no futuro workflow da Aplicação. Uma semana depois comecei a fazer a Prototipagem em Papel dos ecrãs da futura aplicação.

Prototipagem em Papel

Prototipagem em Papel
A prototipagem em papel é uma maneira fácil e rápida de criar esboços de páginas que podem ser usadas para fazer testes com utilizadores.
Porquê em papel e não noutro formato? Porque em papel dá para apagar e voltar a escrever por cima, tirar notas, dobrar, recortar… e é mais rápido de desenhar do que se fosse feito através de algum software.

A prototipagem em papel é particularmente útil para recolher dados sobre:

  • Conceitos e terminologia: Os utilizadores percebem os termos escolhidos para os formulários?
  • Navegação: Os passos que uma tarefa requer são compreendidos pelos utilizadores? Correspondem às suas expectativas?
  • Conteúdo: O interface fornece a informação que os utilizadores querem ver? Existe alguma informação em falta ou a mais?
  • Layout da página: Apesar dos ecrãs desenhados não serem nada bonitos, dá para se ter uma ideia da localização da informação. Os campos e objectos estão onde os utilizadores esperam? A informação disponibilizada é demasiada, pouca, ou a correcta?
  • Funcionalidade: Através da interacção com os utilizadores podemos descobrir funcionalidades que eles necessitam e que não foram concebidas, ou então funcionalidades que estão no papel mas que os utilizadores não necessitam.

Prototipagem em papel

E os benefícios incluem:

  1. Testar o layout antes de começar a programar: Há funcionalidades que são muito complexas de programar e se elas começarem a ser desenvolvidas antes de se obter o feedback dos utilizadores, depois torna-se mais difícil corrigi-las. Desta forma, podemos testar o interface sem programar uma linha de código.
  2. Fazer alterações rapidamente: Com os protótipos em papel podemos rapidamente apagar ou escrever por cima, mesmo durante os testes de usabilidade.
  3. Eliminar variáveis tecnológicas nos testes de usabilidade: Muitas vezes há problemas técnicos que fazem com que os testes não se possam realizar ou que tenham que ser adiados. Com os protótipos em papel não há problemas técnicos que possam impedir a realização dos testes.

Terminei hoje de fazer todos os protótipos e devido à dimensão da Aplicação, tenho no total 135 ecrãs! Amanhã é dia de testes de usabilidade com os utilizadores…

Actualização

Quinta, 10 Novembro, 2005

O primeiro dia de testes correu melhor do que esperava. Devido à complexidade de todos os processos que existem na empresa tive medo que me tivesse esquecido de algo importante ou que algum ecrã não tivesse a informação correcta. No entanto, durante os primeiros testes da manhã o resultado foi muito positivo. Os utilizadores gostaram da ideia e aprovaram todos os layouts apesar de terem dado algumas recomendações para melhorar um pouco mais o interface.

Juntamente com os colaboradores, também estiveram presentes nos testes os administradores da empresa porque afinal eles também querem ver aquilo pelo que estão a pagar. De qualquer das formas, todos os colaboradores se sentiram à vontade com a presença dos administradores e por um lado até foi positivo que eles estivessem presentes porque têm um conhecimento global do negócio que os colaboradores não têm (cada colaborador apenas executa as tarefas do seu departamento) e era importante interligar as tarefas dos vários departamentos para se ter uma ideia global do funcionamento da empresa e desssa forma perceber se os protótipos faziam sentido num contexto mais global.

No final dos testes as pessoas sairam satisfeitas porque nunca pensaram que seria possível que alguma pessoa externa à empresa pudesse compreender o seu funcionamento num espaço de tempo tão curto (1 mês de análise) e que pudesse ser-lhes mostrado em papel o funcionamento de uma futura aplicação.

Para eles a fase seguinte seria já passar aquilo para produção, mas expliquei-lhes que a fase seguinte seria passar os ecrãs para formato digital (wireframes) e depois voltar a mostrar-lhes para saber a sua opinião relativamente a cada um. Nesta altura ficaram espantados (no bom sentido) sobre o facto que ainda iriam poder dar mais uma vista de olhos nos ecrãs mas agora num formato mais próximo do resultado final. Foi a cereja no topo do bolo!

E agora posso-me gabar um bocadinho: a palavra que mais ouvi depois de cada teste foi: “Parabéns!!”. E deu para perceber que as pessoas estavam mesmo felizes por no futuro terem uma aplicação que lhes possa facilitar o trabalho :D

Neste primeiro dia fiz testes com 13 pessoas (4 departamentos). Amanhã é dia de testar com as pessoas dos restantes 3 departamentos. Hoje o meu ego está em alta. Espero que assim continue amanhã :)

Prototipagem em papel

Actualização

Sexta, 11 Novembro, 2005

Os testes de hoje decorreram com sucesso. Apesar de não ter sido possível terminar os testes com todos os utilizadores por motivos que me são alheios (falta 1 departamento), o resultado final pode-se considerar que foi bastante positivo.

Com base nos protótipos foi possível fazer com que as pessoas navegassem pelos ecrãs e dessa forma compreendessem aquilo que irão ver no futuro na nova aplicação. O feedback recebido foi muito positivo e ajudou a completar alguns ecrãs e a remendar outros. Houve ainda algumas questões não mencionadas nas entrevistas (fase de análise) e que foram mencionadas durante a interacção com os protótipos. Sendo assim, esta prototipagem acabou por complementar um pouco a recolha de informação, que, por se tratar de uma empresa com muitas tarefas e procedimentos complicados, é normal que as pessoas se esqueçam de mencionar algo. A partir do momento em que lhes é apresentado um protótipo com o qual podem interagir e podem ver a informação que lhes será disponibilizada, é normal que se lembrem de algo mais e aí sim dizem: “Ah, mas falta aqui isto que me tinha esquecido!”.

Esta é a fase ideal onde nos devem dizer o que falta na aplicação além daquilo que lhes foi mostrado. Desta forma evitamos no futuro ter de fazer correcções já no processo de desenvolvimento e programação da aplicação.

Conclusão

Através da utilização de protótipos simples e rápidos de construir foi possível testar a interacção dos utilizadores com uma futura aplicação web. Estes testes permitiram fazer a validação dos ecrãs propostos e obter um feedback importante dos futuros utilizadores.
Nesta fase foram identificadas algumas alterações a fazer nos ecrãs antes mesmo de se começar a programar ou a desenvolver a aplicação. Uma vez que se tratam de protótipos em papel, as alterações foram efectuadas a lápis, mesmo durante os testes com os utilizadores.

Desta forma, os próprios utilizadores sentem que tiveram um papel importante na concepção da nova aplicação, o que permite que no futuro, durante a implementação haja uma maior cooperação das pessoas para passarem a usar esta aplicação em vez dos métodos antigos.

Depois da validação dos protótipos é altura de começar a conceber os Wireframes.

Artigos Relacionados

Links

46 Comentários

Escreva o seu comentário!

Comente!

Preencha o seu nome para assinar o comentário. O preenchimento deste campo é obrigatório.

Os comentários são as suas ideias ou opiniões em relação ao artigo que acabou de ler. Assine o seu comentário para dar a conhecer o seu ponto de vista. 
O seu endereço de e-mail não será publicado. O preenchimento deste campo é obrigatório.

Este site suporta a utilização de gravatars. Caso o seu endereço de e-mail esteja registado em gravatar.com, irá aparecer a sua imagem ao lado do comentário. 
Se tiver um website, este é um bom local para o publicitar.

Sempre que alguém ler o seu comentário, irá ver um link para o seu site. Se o seu comentário for relevante para os outros utilizadores, com certeza eles quererão saber mais sobre si e visitarão o seu site. 
Este formulário permite o uso de algumas tags em XHTML. As tags permitidas são as seguintes:

<a href="" title="">
<abbr title="">
<acronym title="">
<b> <blockquote cite="">
<code> <em> <i> <strike>
<strong>
 

Sobre este Artigo

 

Sobre o Autor...

Ivo GomesIvo Gomes tem 30 anos e é licenciado em Ergonomia pela FMH. Durante o curso especializou-se em Ergonomia de Sistemas de Informação e actualmente é líder do Departamento de Usabilidade e Qualidade do SAPO.

É sócio da Associação Portuguesa de Ergonomia, da Usability Professionals Association, e sócio fundador e membro do Conselho Directivo da Associação Portuguesa de Profissionais de Usabilidade.

Categorias do Blog

Arquivo

Consulte o arquivo para procurar algum artigo específico ou use o motor de busca.

|

Subscreva

Se preferir pode subscrever os artigos deste site via RSS para poder estar sempre actualizado.

O que são Feeds RSS e como as posso subscrever?