A importância da usabilidade na fase inicial de um projecto

Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

Este é um post em que tenho andado a adiar a sua publicação há vários meses. Mas cá vai disto.

Há cerca de 1 ano e meio atrás fui abordado para ajudar no desenvolvimento de um grande portal. A ideia seria torná-lo o melhor portal do género em Portugal em termos de usabilidade, facilidade de uso, e de conteúdos. Convém dizer que não se trata de um portal generalista como o Clix ou o SAPO, mas sim de um portal com conteúdos muito específicos numa área com bastante procura por parte dos utilizadores (infelizmente não vou dizer publicamente qual é). Já existem outros grandes sites (inclusivé o maior competidor é um canal do SAPO) o que faz com que a concorrência seja muita e daí a necessidade de se ter o melhor produto no mercado.

Fizemos uma proposta que incluía o desenvolvimento do portal segundo as regras de usabilidade e seguindo sempre os webstandards para proporcionar um website fácil de usar, leve, e ao mesmo tempo agradável à vista. Obviamente que, se nos pediram para fazer o melhor site do mercado, tivemos que fazer uma proposta que tivesse em conta isso mesmo, ou seja, a qualidade geral do produto teria que ser bastante acima da média. E isso reflecte-se nos tempos de desenvolvimento e, consequentemente, no preço final.

A resposta que nos deram foi que os tempos que tínhamos fornecido não dariam para ter o site no ar a tempo. Isto porque o prazo para a colocação no ar era de apenas 3 meses. Além disso, eles já tinham decidido qual o gestor de conteúdos que queriam usar e disseram-nos que não dava para usar o nosso código directamente nos templates porque eles eram gerados automaticamente por esse gestor de conteúdos. Ou seja, ficámos sem perceber se o gestor de conteúdos é assim tão mau ou simplesmente se as pessoas que o estavam a instalar não tinham conhecimentos suficientes para pegar numa página em HTML e converter para um template…

Depois disso, fizemos nova proposta que incluía desenvolver ou usar um outro gestor de conteúdos mais flexível, mas isso iria aumentar o tempo de desenvolvimento e os custos, pelo que foi também recusada.

3 meses depois

Passados 3 meses, o site já deveria estar no ar, mas aconteceram alguns atrasos e o design apresentado pela outra empresa que ganhou o concurso não estava devidamente especificado e faltava definir onde e como deveriam ser incluídos alguns elementos nas páginas bem como faltava também o design de algumas páginas interiores importantes.

Além disso, o código HTML e CSS do website estava demasiado pesado e muito mal estruturado (uma mistura de tabelas e div’s; id’s e classes de CSS com nomes enormes e com todo o aspecto de terem sido gerados automaticamente; muito código repetido e redundante).

Nessa altura, foi-me pedido para ajudar a redefinir todo o layout do site, para o tornar mais “clean” e criar os elementos e páginas que faltavam, isto claro, sem fugir ao design actual. Aceitei o desafio e eles aceitaram os valores que pedi. Infelizmente, nem todas as minhas propostas de alteração foram aprovadas e o site manteve-se com um layout pesado e pouco “clean” na minha opinião. No entanto, consegui melhorar alguns aspectos claros de má usabilidade (alguns continuaram com má usabilidade porque os designers disseram que não gostavam do aspecto das propostas de alteração que eu fiz!) e criei as páginas que faltavam (em Photoshop).

Neste momento tinha-se passado mais um mês e o projecto já estava atrasado. Ou seja, além de não estarem a cumprir os prazos (o que acarreta custos) estavam a contratar alguém para resolver os problemas de usabilidade que deveriam ter sido resolvidos logo no início (mais custos).

6 meses depois

O desenvolvimento está praticamente terminado e o site foi lançado em versão Beta para os vários “produtores de conteúdos” começarem a inserir os conteúdos que iriam tornar o site um dos maiores do país no seu ramo de actuação.

Um dos principais sintomas que se nota é a lentidão de carregamento das páginas (demasiadas imagens, cantos arredondados, tabelas, demasiado código “lixo” e redundante). Além disso, o principal concorrente lançou uma nova versão do seu site, com um layout mais apelativo e inovador.

Por tudo isto, voltaram a entrar em contacto comigo para refazer totalmente o layout do site de modo a torná-lo mais leve, clean e usável (não foi isto que nos pediram há 6 meses atrás?). A ideia, segundo eles, é que uma vez que já está tudo praticamente desenvolvido seria mais fácil agora alterar o layout do site.

A minha resposta foi que, ao contrário do que pensam, sai-lhes mais caro alterar agora o layout do site do que lhes teria saído se o tivessem feito logo no início. Isto porque essa alteração teria que ser feita em todas as páginas e o código HTML e CSS que lhes seria entregue seria diferente do actual, o que iria aumentar o trabalho da equipa que faria a integração do HTML com o gestor de conteúdos. Além disso, no inicio tinham-nos dito que o gestor de conteúdos deles não permitia usar o nosso código nos templates… Não me voltaram a contactar.

1 ano e 6 meses depois

O site está online (não vou colocar aqui o endereço porque não quero divulgar o nome do cliente) e praticamente ninguém o conhece. Para quem queria ser um portal de referência, foi um “epic fail”. Nem com publicidade na TV (de vez em quando passam alguns spots na TV) me parece que o site tenha alguma audiência. Posso estar enganado porque não conheço os números dos acessos, mas penso que a maior parte das pessoas nunca ouviu falar dele nem nunca o usou…

Conclusão

Se tivessem aceite a nossa proposta inicial, o custo total, comparado com o custo dos deslizes do projecto e das alterações efectuadas durante o decorrer do mesmo seria muito menor. Não posso dizer que o site seria mais ou menos conhecido do que é actualmente, mas pelo menos teriam algo com qualidade.

Pode ser que este tenha sido um exemplo em que tudo correu mal para o cliente e possam pensar que o erro dele foi a vários níveis (não só na não contratação dos nossos serviços, mas passando também pela má escolha do gestor de conteúdos e do design do site), no entanto já vi isto acontecer tantas vezes que me continuo a perguntar: porque é que em Portugal se continua a trabalhar em cima do joelho e só se pensa em ter as coisas feitas “para ontem” e sem qualidade nenhuma?

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Sobre este Artigo

 

Sobre o Autor...

Ivo GomesIvo Gomes tem 30 anos e é licenciado em Ergonomia pela FMH. Durante o curso especializou-se em Ergonomia de Sistemas de Informação e actualmente é líder do Departamento de Usabilidade e Qualidade do SAPO.

É sócio da Associação Portuguesa de Ergonomia, da Usability Professionals Association, e sócio fundador e membro do Conselho Directivo da Associação Portuguesa de Profissionais de Usabilidade.

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